quarta-feira, 8 de abril de 2009

No final

Duas horas. Já devia fazer umas duas horas que ele estava lá, sentado e nem um pouco preocupado. Como se ficar preocupado agora fosse de alguma valia.

“Então, presumo que o senhor não abrirá a boca para nós, Mister Jones?”

“Sabe, sempre quis saber porquê quando um bandido tortura alguém, o filho da mãe sempre fala como se fosse superior. Até parece que alguém tá filmando...”

“Ora, Mr. Jones, devo admitir que é deveras corajoso.”

“OK, tenta prestar atenção dessa vez: Eu não sou místerdjônis nenhum. Só tava saindo da padaria quando me atacaram e me trouxeram pra esse buraco com um gringo louco que pensa que eu sou alguém importante.”

“Escocês, meu caro. Meu sotaque denuncia minha pátria.”

“O que mais denuncia é esse português horrível e esse cheiro de uísque.”

“Whiskey.”

“Uarévah, como vocês dizem.”

Pá! Tapa na cara, bem servido. Um pouco de sangue, mas nem faz diferença, há sangue por toda a camisa já.

“Cara, você podia ter seqüestrado alguém que tivesse grana, pelo menos.”

“Mr. Jones, pare de perder meu tempo. Não sou pago por hora.”

“E o que você faria se fosse comprar pão pra patroa e parasse numa sessão de tortura com um escocês autônomo?”

“Piadinhas são realmente o forte do agente mais mortífero do mundo.”

“Sei... Me apresenta ele então, porque eu já to ficando cansado de apanhar.”

“Boris! Victor! Tragam-me a serra...”

“Olha o que eu te falei, você quer falar todo bonito, usou ênclise e tudo, até tem capangas com nomes russos, isso é muito clichê, cara...”

“Usei o quê?”

“Ênclise, sabe? Quando você fala alguma coisa do tipo tragam-me, guarde-a... Isso é muito metido à besta.”

A serra brilha sob a luz difusa e fraca da sala, a lâmpada mais gera calor do que ilumina. O escocês dá um sorriso sádico e olha para o homem sentado como uma criança olha pra um brinquedo novo.

“Ô Escocês, precisa mesmo chegar nisso? Eu já apanhei. Já falei tudo. Eu não chamo nem a polícia, pode ir procurar seu agente sossegado.”

“Meu nome não é esse, Mr. Jones, mas fico honrado com o apelido, talvez eu até mesmo adote-o.”

“Olha a ênclise de novo... Todo escocês é lerdo assim ou é só o Escocês aqui mesmo?”

A cabeça do Escocês desce até os pés descalços do homem, o torturador começa a cortar o dedo mínimo do pé esquerdo do misterioso azarado.

“AAAAAHHHHHH!!!!!”

“Grite o quanto quiser, Mr. Jones. Ninguém o escutará. Nunca mais.”

“Seu filho de uma boa....”

“Shhhh!!! Não ouse ofender mamãe...”

“Imagina... eu nunca ofenderia uma criatura que sofre tanto por ter uma coisa como você de filho. Eu tenho pena dela...”

“Mr. Jones, sempre um cavalheiro.”

“Escocês, sempre um idiota...”

“Seu dedo está sangrando um pouquinho.” Uma leve alegria contida podia ser percebida na voz do Escocês. “Talvez devesse chamar seus amiguinhos da agência.”

“Só se for do banco, devo estar devendo o suficiente pra eles. O suficiente pra me preferirem vivo.”

“Há! Ainda tenta convencer-me com essa inútil tentativa de inocência?”

“Ê...” Fala baixo.

“O quê? Não escuto.” O Escocês chega o ouvido mais perto.

“Ênclise... Idiota.”

O referido idiota pisa na ferida recém adquirida do homem. Ele grita. Muito.

“Eu estou ficando impaciente, Mr. Jones. Onde estão as senhas pra rede interna?”

“Eu não lembro a senha do meu e-mail, amigão. Boa sorte tentando me fazer lembrar do que nem sei.”

O Escocês encara por algum tempo a face do homem sentado à sua frente.

“E se... por um momento, eu acreditasse que esses dois idiotas pegaram a pessoa errada. Como você me convenceria disso?”

“Eu já to tentando fazer isso, sabe? Desde que puseram um saco preto na minha cabeça.”

“Hum...”

“O que te fez mudar de idéia?”

“O Mr. Jones não costuma ser tão burro assim, ele inventaria alguma desculpa melhor, ou já teria se livrado dessas cordas. Provavelmente não seria tão ignóbil a ponto de usar um disfarce tão casual e óbvio como um pai de família em uma padaria.”

“Pois é... um agente costuma ser um daqueles caras bonitões, né? Acho que com minha barriguinha de cerveja eu não sou muito bom nessas coisas de espionagem. O máximo que já fiz foi dedurar uma mulher de amigo que tava chifrando o coitado.”

“O que você tem a me dizer se eu contar que matei Scarlett e Josh?”

“Quem?”

“Nem ao menos uma reação fisiológica. Ou você é muito bom ou é inocente. Não tem como esconder coisas de mim.”

“Então me solta! Eu esqueço o que aconteceu aqui, não sou louco de brincar com a máfia ou sei lá o quê. Só me dá meu dedo que se passar no posto de saúde eles podem dar uns pontos ainda.”

“É muito arriscado, meu caro. Acho que devo matá-lo.”

O homem abre os braços e livra-se das cordas antes firmemente amarradas. Um golpe rápido com o corpo derruba o Escocês. Boris e Victor sacam as armas. Não tão rapidamente quanto deveriam. O ambiente está escuro, os dois são muito lerdos, uma pancada em um e um tiro em outro. Só o Escocês está vivo, arrastando-se para a porta entreaberta.

“Scarlett e Josh sabiam no que se meteram, eles morreram pelo trabalho, assim como você.”

“Você... você é o Mr. Jones! Enganou-me perfeitamente...”

“Ainda não aprendeu, Escocês? Eu odeio ênclise.”

Bang!