terça-feira, 21 de outubro de 2008

20.9.20.21.12.15

Era noite, mas cheirava à manhã. Uma daquelas que lembramos, mas não aproveitamos. Miguel tinha saído havia muito tempo e não percebera que sua casa essa hora não era nada além de fuligem.
O recém-nômade estava procurando sua única razão de vida, aquilo que mantinha o nó frouxo, o conhecimento. Conhecimento que se materializava na forma de um velho e inútil marinheiro aparentando ter nascido 585 luas atrás, mas sem dúvida, ele já estava sob a regência desse mundo antes disso. Não tinha nome, ou pelo menos Miguel não o conhecia, e o chamava pela única palavra parecida com um nome que aquela boca já proferira: Oneiros. Provavelmente era grego, mas um nome era o que menos interessava à mente ávida de Miguel, Oneiros provinha idéias e isto bastava.
- Oneiros! Estava procurando-o.
- E já me encontrou.
Começaram a andar entre a cidade, que se tornava cada vez mais escura.
- Você tem que me ajudar, não durmo sabendo que não sei. Metáforas invadem cada pensamento que tenho e levam embora a paz que reinava em mim.
- Metáforas? Metáforas são só expressões da timidez da alma humana.
- É uma análise um tanto fria.
- Não tanto quanto o vosso coração ou o de qualquer outro bastardo dos anjos.
- Você é realmente contra a compaixão e o amor...
- Há! E o que é o amor? Nada além de uma palavra, uma aberração criada num lampejo de Mary Shelley, um mísero vocábulo que ganhou vida e agora nos corrói por sua ausência.
- Então o amor não existe?
- Não como o conhece. Seu inimigo o deturpa.
- E quem é o inimigo do amor, Oneiros?
- Nós.
Os dois caminhavam sobre uma velha ponte que não era mais usada. O rio, protegido pela escuridão, não deixava que vissem o sangue fluindo entre suas margens. Gritos soavam como uma distante melodia regida por Saturno, que dominava o Firmamento aquela noite.
- Ainda não entendo seus caminhos, velho marujo.
- É porque não levam a lugar algum...
- Você deveria escrever o que vê.
- O que vejo está oculto. Além disso, não escrevo. Nunca irei me tornar escravo do verbo. – mirou os olhos negros ao céu – Aí está algo que realmente me desagrada, o verbo deveria nos servir, e não o contrário.
Longe dali, o fogo brincava entre a cidade, construções voltavam ao pó, tudo o que restou foi o pânico.
- Miguel... Logo estarão aqui. Você vai morrer.
Foi a primeira vez que Oneiros o chamou pelo nome.
- Não me importo, Oneiros. Só quero saber o que podemos fazer para isso parar de uma vez por todas.
- Não podemos fazer nada.
- Por que não?!
Os olhos de Oneiros refletiam a lua vermelha que brilhava sobre eles.
- Somos apenas tinta, Miguel. Apenas tinta...

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