segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Capricórnio

Não passa de mais uma manhã. Não um “uma” artigo, um “uma” numeral mesmo, apenas outra a ser contada e não-vivida. O Sol acorda frio e mal esquenta meu sangue, como um calango sem vontade eu acordo, embora tenha levantado da cama há tempos. O que esperar do dia? Meus avós queriam viver num musical da Broadway, meus pais ansiavam um filme, eu no máximo almejo a vida num videoclipe, rápido, sem sentido ou sentimento.
Não há variação no roteiro: O caminho até o ponto, o ônibus, a faculdade, a aula, os amigos, o almoço, o retorno, a aula, qualquer coisa que prenda minha atenção, qualquer coisa que faça despertar minha atenção, qualquer coisa que faça eu me atentar, qualquer coisa que me faça acordar.
Não é uma manhã comum, percebo isso no momento exato em que a vejo. Quem é ela, você me pergunta? Nem eu sei. Ainda.
Não tenho conhecimento se há uma teoria pra isso. Como a gente fica idiota quando vê alguém por quem temos interesse... Qualquer desculpa é válida e a timidez procede de duas maneiras, ou torna-se um muro separatista intransponível ou é completamente abolida, levando-nos a fazer coisas que normalmente seriam consideradas idiotas. De qualquer modo, você já está ferrado.
-Cara, quem é ela?
-Ah, ela estuda comigo, o nome dela é Linda.
Não, leitor. Não é clichê ou falta de criatividade, é apenas um tabelião visionário. Um verdadeiro profeta burocrático que anteviu o futuro ao registrar aquela maravilha com o adjetivo que mais lhe caberia.
-Tem namorado?
-Não, tá solteira. Ficou interessado, é?
-Ah, ela é bonitinha...
-Sei...
Não vou descrevê-la, eu estaria sendo parcial já que tenho interesse nela. E qualquer descrição por alguém que está apaixonado é um lixo. Eu não vejo “ela”, eu vejo o que me atrai nela. Fique livre para caracterizá-la como bem entender.
-Ela vai na festa hoje à noite.
-É à.
-É o quê?
-Ela vai à festa hoje. Você falou errado.
-Tá. Mas ela vai. Aproveita e chega nela.
-Quem sabe...
Não demora a anoitecer. Arrumo-me com um pouco mais de atenção, hoje eu tenho uma meta, e metas movem o mundo. A festa vai acontecer em um lugar genérico, um abrigo qualquer para hormônios e mentes em fúria. Lá está ela! Seguro a ansiedade, é mais cool assim. Meu amigo (aquele do “na festa”) me apresenta.
-Linda! Já conhece meu amigo, CH?
Não, isso não é programa de proteção ao narrador, não é frescura e eu não sou a Carolina Herrera. É só meu apelido. Uma amostra de como a vida real pode ser sem-graça...
-Oi, tudo bem? Eu sou a Linda.
-Oi. -beijinhos no rosto- Então, de onde você é?
-Sou daqui mesmo. E você?
Não vou perder seu tempo, leitor. O que ocorre é uma conversa padrão, duas pessoas que se conhecem numa festa, você deve saber como é... Ninguém lê um romance pra ver situações cotidianas, o que se espera é um clímax, um momento que fique guardado na memória e que remeta àquela obra assim que mencionado. Então vamos ao que realmente interessa.
-CH, acabou minha cerveja...
-Depois a gente pega mais.
-Quer dançar?
-Claro.
Não há clímax aqui. Nossas palavras foram essas, mas o que realmente pode ser considerado o “gatilho” foram os olhos. É meu papel como narrador contar que o beijo não se fez por palavras cuidadosamente encaixadas ou por perguntas desnecessárias. Mais do que isso, nós dois sabíamos que ia terminar assim (três com você, leitor), meu rosto falava mais do que minha boca. Um golpe de espada é silencioso, e pode causar mais danos do que uma briga. O clímax existe, mas realmente não está aqui. Está em mim, está nela, está em nós. Um beijo.
Sim, leitor. Eu vivo.

3 comentários:

Luly disse...

ADORO esse texto!

Meu favorito.. hehe

cade seus desenhos?

Ana Olivia disse...

É isso aí, tem que viver ;)
haha

*só pq vc me encheu o saco pra passar aqui! haha ;*

Luly disse...

Mr. Caio... cadê o selinho do RG?